02 de fevereiro de 2022
Carta Mensal Hashdex - Janeiro 2022

Caro investidor, 

A Carta Mensal da Hashdex desse mês traz como tema “O Papel da Descentralização na Web 3.0”. As notícias de destaque são: 

  • Jerome Powell promete divulgar relatório de cripto “dentro de semanas”.

  • Putin destoa de Banco Central e demonstra apoio às criptomoedas.

  • Eduardo Paes quer investir 1% do Tesouro Carioca em cripto.

  • Hashdex lança primeiro ETF de DeFi do mundo.

 

Estamos à disposição para quaisquer dúvidas.

 

Boa Leitura,

 

Time da Hashdex

 

FUNDOS DE INVESTIMENTOS HASHDEX

Confira a performance dos nossos fundos:

PERFORMANCE DO NCI (USD) YTD -20,0%

 

PERFORMANCE DO NCI EM JANEIRO -20,0%

 

PERFORMANCE DOS ATIVOS DO NCI

 

JANEIRO: INÍCIO DE 2022 COMO O FINAL DE 2021

O ano de 2022 começou como 2021 terminou, com o mercado de criptoativos em queda. O principal fator que explica a desvalorização disseminada entre os ativos de risco ao redor do mundo desde novembro está relacionado à expectativa de subida da taxa básica de juros nos EUA, em resposta ao aumento da inflação.

Os primeiros dias de janeiro foram de relativa estabilidade, com o Bitcoin rondando os US$46.000 e o NCI flutuando em torno dos 3.000 pontos. Ainda na primeira semana, já houve uma queda acentuada, concomitante com a divulgação das notas da reunião de dezembro do FED e com o arrefecimento dos protestos no Cazaquistão, segundo país em mineração de Bitcoin após o banimento da atividade na China. O Bitcoin chegou a ser negociado abaixo dos US$40.000 dólares e, no dia 10, o NCI recuava 12%.

Após alguns dias de oscilação normal, mais um duro golpe abateu o mercado de criptoativos. No dia 20, veio a público um documento do Banco Central da Rússia sugerindo o banimento do uso e da mineração de criptoativos no país. A Rússia é o terceiro país em mineração de Bitcoin. Os dois dias que se seguiram foram de forte queda. Em duas ocasiões, houve quedas superiores a 10% em intervalos de menos de meia hora, indicando liquidações automáticas de margem de contratos futuros, que criam um efeito dominó e forçam os preços para baixo. No dia 22, o NCI acumulava queda de cerca de 28%.

Na última semana do mês, houve uma significativa recuperação. O tom mais brando do comunicado do FED sobre a política monetária e o recuo da Rússia, terceiro maior minerador de Bitcoin, sobre a questão do banimento ajudaram a empurrar os preços para cima. Desde a mínima no mês, no dia 22, o NCI subiu 11,8% e fechou o mês com queda de 20,0%. A menor queda entre os constituintes do índice foi do Chainlink, que teve um ótimo início de mês, ainda embalado pelos anúncios de parcerias do final do ano passado, e terminou o mês com queda de 10,6%. O Bitcoin veio em seguida, com queda de 16,0%. A performance dos fundos locais também foi influenciada pela valorização do Real frente ao Dólar, de cerca de 5%.

 

NOTÍCIAS RELEVANTES:

 

JEROME POWELL PROMETE DIVULGAR RELATÓRIO DE CRIPTO “DENTRO DE SEMANAS” 

Durante uma oitiva da Comissão Bancária do Senado dos EUA, Jerome Powell, presidente do Banco Central dos EUA, prometeu (11/01) divulgar um relatório abordando o universo das criptomoedas “dentro de semanas”. A reunião é uma das etapas da sua recondução ao cargo de presidente do Federal Reserve (Fed), que vem na esteira da nomeação para um segundo mandato feita pelo presidente dos EUA, Joe Biden.

A expectativa é que o relatório tenha como foco a possível emissão de uma Moeda Digital do Banco Central (inglês: Central bank digital currency, CBDC), além de possíveis regulamentações para as moedas estáveis (inglês: stablecoins), um assunto que  Powell já destacou como prioritário em várias ocasiões anteriores para o FED. 

O presidente do BC americano buscou temperar as expectativas em torno do tão esperado relatório, revelando que a publicação deve “fazer perguntas em busca de opiniões do público mais que se posicionar, apesar de que faremos alguns posicionamentos.”

O relatório já é aguardado desde julho de 2021, data em que a sua publicação foi prometida para setembro daquele ano, mas sofreu uma série de atrasos enquanto o FED prioriza assuntos relacionados à política monetária. Apesar da série de adiamentos, Powell revelou que o relatório está "efetivamente pronto agora''.    

 

PUTIN DESTOA DE BANCO CENTRAL RUSSO E DEMONSTRA APOIO ÀS CRIPTOMOEDAS 

Vladimir Putin, presidente da Rússia, ressaltou a importância das "vantagens competitivas” da Rússia em resposta a uma proposta do Banco Central Russo em 20/01, que sugere a proibição de atividades relacionadas às criptomoedas. Segundo o líder do Kremlin, o excedente de energia elétrica disponível em algumas províncias torna a mineração de Bitcoin uma atividade econômica atraente.

O comentário, que também citou riscos associados à volatilidade das criptomoedas,  foi feito durante uma reunião ministerial. Putin pediu que os integrantes do seu governo e as autoridades do BC continuem a discutir o setor de cripto até que algum consenso seja alcançado. A Rússia é o terceiro maior minerador de bitcoins do mundo, atrás apenas dos EUA e do seu vizinho Cazaquistão.    

Ivan Chebeskov, chefe de política financeira do Ministro de Finanças, já havia criticado o relatório do BC Russo, que citou (20/01) riscos associados à política monetária, à volatilidade e ao uso de criptomoedas para atividades ilícitas. Segundo Chebeskov, o setor precisa ser regulado, mas não proibido.    

 

EDUARDO PAES QUER INVESTIR 1% DO TESOURO CARIOCA EM CRIPTOMOEDAS

Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro, revelou (14/01) uma iniciativa que busca firmar o Rio de Janeiro como um polo para o setor de criptoativos. O prefeito da capital fluminense revelou, durante o evento Rio Innovation Week, que estuda a possibilidade de investir 1% do tesouro da Cidade Maravilhosa em criptomoedas. O evento contou com a presença de Francis Suárez, prefeito de Miami, que inspirou a iniciativa após ter anunciado um plano de investimento semelhante para a cidade americana. Outras possíveis iniciativas do projeto “Cripto Rio” incluem descontos para quem pagar IPTU com Bitcoin e incentivos fiscais para empresas do ramo de tecnologia. 

Em uma entrevista ao portal especializado em cripto CoinDesk, Chicão Bulhões, secretário de desenvolvimento econômico do Rio de Janeiro, revelou que o projeto Cripto Rio foi concebido como consequência do surgimento de empresas do setor cripto que já se estabeleceram na cidade, citando a Hashdex como exemplo. Segundo o secretário, o governo do Rio acredita que os criptoativos representam uma oportunidade que potencialmente pode resguardar o poder de compra (contra a inflação) dos brasileiros.  

 

DESTAQUES HASHDEX:

 

Hashdex prepara lançamento de primeiro fundo de índice (inglês: Exchange Traded Funds, ETF) do mundo dedicado às tecnologias de finanças descentralizadas (inglês: decentralized finances,DeFi). O produto, que terá sua estréia na B3 no dia 17/02, permitirá o investimento em uma cesta de ativos que prometem estabelecer uma nova infraestrutura para serviços financeiros baseada na transparência, segurança que dispensa de intermediários. 

 

Segundo dados do mais recente boletim de ETFs da B3, o Hash11, que replica performance do Ìndice NCI, acaba de se tornar o segundo maior fundo de índice em número de cotistas após superar o tradicional BOVA11, que tem 14 anos de história e replica a carteira teórica do Ibovespa. 

 

Pela quarta vez desde que criamos a Hashdex, viemos nos dirigir a vocês motivados por grandes movimentações nos preços dos criptoativos, apresentando a nossa visão sobre a conjuntura do momento, abrindo o foco para colocar em perspectiva os aspectos estruturais e reiterando os nossos princípios de um investimento responsável e com visão de longo prazo. 

 

Visando cada vez mais disponibilizar conhecimento através de conteúdo educacional, nossa equipe de research disponibilizou um guia completo de DeFi onde abordam os principais conceitos, aplicações e tendências dessa nova tecnologia.    

 

TEMA DO MÊS:

 

O Papel da Descentralização na Web 3.0

Nas últimas semanas, um debate acalorado surgiu na comunidade cripto. De um lado, estão os que vislumbram no conceito da Web 3.0 um novo paradigma social, cultural e tecnológico, mais aberto e igualitário. Do outro, aqueles que consideram esse ideal nada mais do que uma utopia, impossível de ser alcançado. O debate trouxe à tona reflexões importantes, mas que deixam de endereçar o real papel da descentralização nessa nova era da internet.

Web 3.0

Antes de nos aprofundarmos, é necessário responder uma importante pergunta: afinal, o que é a Web 3.0? 

Como o nome leva a entender, o conceito da Web3 surge como a mais recente evolução das diferentes fases de inovação tecnológica da internet, mais especificamente das últimas três décadas, quando o acesso deixou de ser restrito apenas às universidades e laboratórios de pesquisa e tornou-se parte do dia-a-dia de todos.

A primeira dessas fases, chamada de Web 1.0, remonta aos anos iniciais da década de 90, quando os computadores pessoais tornaram-se mais acessíveis e começaram a se popularizar. Foi nesse período que surgiram os primeiros navegadores, permitindo acesso simplificado aos conteúdos disponíveis online. Era uma internet descentralizada, na qual os usuários podiam ganhar seu espaço de igual para igual com os demais, estruturando suas próprias páginas e servidores, sem depender de intermediários. Apesar disso, algumas barreiras ainda restringiam a adoção em massa: a necessidade de conhecimento técnico para a criação de web pages, o acesso lento devido à velocidade de internet disponível à época, e interfaces ainda pouco amigáveis para o público geral.

Posteriormente, veio a Web 2.0, impulsionada pela disseminação da banda larga e pelo surgimento dos smartphones. Nessa fase, as grandes empresas de tecnologia assumiram o papel de coordenação de boa parte da infraestrutura da web, facilitando enormemente o acesso e tornando a experiência de uso muito mais acessível. A internet tornou-se parte do dia-a-dia de centenas de milhões de pessoas, e os usuários deixaram de ser apenas coadjuvantes, tornando-se protagonistas na construção de uma internet colaborativa. 

Ao longo desse período, as grandes empresas de tecnologia revolucionaram a relação de consumo, oferecendo produtos e serviços de melhor qualidade e a preços significativamente inferiores aos do mercado. Setores inteiros foram transformados por modelos de negócio completamente digitais, não limitados às barreiras geográficas e com custo marginal zero. Do setor hoteleiro ao de transportes, empresas sem praticamente qualquer ativo físico tornaram-se as líderes de seus mercados. Com capital de risco abundante, foram criados incentivos extremamente lucrativos para os consumidores, levando a uma proposta de valor aparentemente imbatível.

Cedo ou tarde, porém, o capital fica escasso, o crescimento desacelera e os investidores ficam ansiosos em relação aos resultados financeiros. Uma vez bem posicionadas – com vantagens de escala e efeitos de rede –, essas empresas iniciam o processo de extração de valor de seus clientes. Os subsídios dão lugar a aumentos de preço e o foco das companhias, antes integralmente direcionado aos consumidores, passa a concorrer com objetivos de margens elevadas e geração de caixa. Nos últimos anos, efeitos colaterais nocivos começaram a surgir, envolvendo questões de privacidade dos usuários, a venda de dados pessoais e a manipulação do debate público.

É nesse contexto que surge um novo conceito, a Web 3.0. Baseada na tecnologia de blockchain, a Web3 inverte a lógica tradicional, dependente de grandes empresas, e permite o acesso amplo a uma nova arquitetura, mais aberta, transparente e descentralizada. Por meio dos criptoativos, os usuários passaram a ter o controle e a titularidade de seus próprios dados no mundo digital.

 

É um novo paradigma de organização econômica e social do mundo online, no qual deixa de existir a necessidade de autoridades centrais de governança – como as grandes corporações. Com isso, o valor gerado pelas redes pode ser efetivamente convertido em benefício de todos os participantes, dos desenvolvedores por trás das aplicações aos consumidores na outra ponta. Segundo Chris Dixon, sócio do fundo de Venture Capital a16z, “a Web3 possibilita o surgimento de uma nova internet, de propriedade dos desenvolvedores e usuários, orquestrada por meio de tokens”. 

As críticas

Ao longo dos últimos anos, a possibilidade de participar da construção de um novo paradigma da internet atraiu não só empreendedores e desenvolvedores de software, mas também um conjunto cada vez maior de fundos tradicionais de Venture Capital, que vem direcionando investimentos crescentes para o setor. Visando obter retornos expressivos para seus cotistas, esses fundos representam, na visão de alguns, o extremo oposto do ideal imaginado pela Web 3.0. Este é exatamente um dos pontos que têm gerado debates fervorosos entre diferentes opositores e membros mais engajados da comunidade cripto.

Os críticos, em geral CEOs ou altos executivos de grandes empresas de tecnologia, argumentam que a perspectiva de uma internet de “propriedade” dos usuários é apenas uma ilusão. Segundo Jack Dorsey, fundador do Twitter e da Square, mais cedo ou mais tarde, os incentivos gerados por esses fundos levarão a um grau de concentração similar ao observado nas empresas de tecnologia dominantes hoje. Segundo ele, os protocolos desenvolvidos para a Web3 serão, eventualmente, apenas entidades centralizadas com uma nomenclatura diferente.

Um artigo recente publicado por Moxie Marlinspike, cientista da computação e criptógrafo, fundador do aplicativo de mensagens instantâneas Signal, trouxe argumentos ainda mais profundos e técnicos para o debate, alegando que diversos componentes da infraestrutura da Web3 já são e tendem a ficar ainda mais centralizados. São serviços que provêem acesso aos dados da blockchain, por exemplo, e cuja execução concentra-se hoje em poucos players especializados. Segundo Moxie, as pessoas não querem controle total de suas atividades online, com as dificuldades técnicas inerentes disso. Elas preferem a facilidade proporcionada pelas grandes empresas, mesmo às custas de uma maior centralização.

Independentemente do potencial viés desse grupo de interlocutores, cujas empresas serão algumas das principais ameaçadas caso o conceito da Web 3.0 prospere, diversos pontos levantados trazem reflexões válidas e necessárias, que terão de ser endereçadas pela comunidade para que esse novo paradigma alcance o potencial almejado. 

Apesar disso, boa parte desses pontos são problemas conhecidos, já constando no roadmap de melhorias futuras de diversas plataformas. Segundo Vitalik Buterin, fundador do Ethereum, os argumentos de Moxie são válidos em relação ao estado atual da tecnologia, mas deixam de levar em conta a direção para a qual o ecossistema das blockchains está evoluindo. Mecanismos criptográficos de ponta, como Verkle trees e zero knowledge rollups, por exemplo, que deverão permitir maior escalabilidade e descentralização, já estão em estágio avançado de desenvolvimento.

 

A descentralização é o meio, não o fim

Apesar de os críticos terem levantado diversos pontos pertinentes, uma questão fundamental – e essencial para um debate efetivamente construtivo – deixou de ser abordada: seria a descentralização um atributo imprescindível em todas as diferentes camadas dessa nova arquitetura? Na nossa opinião, não.

O aspecto efetivamente inovador do ecossistema cripto foi a introdução de protocolos que permitiram a construção de aplicações baseadas em regras totalmente transparentes, seguras e, acima de tudo, imutáveis – viabilizadas pela arquitetura descentralizada das blockchains. Empreendedores de todo o mundo puderam tomar a decisão de construir seus negócios sobre esses protocolos, com a garantia de que as regras permanecerão sempre as mesmas e sem estarem sujeitos às decisões idiossincráticas de governos e empresas. Essa arquitetura aberta e descentralizada, associada aos diferentes tipos de criptoativos nativos dessas redes, permitiu, pela primeira vez, que os usuários se tornassem os efetivos titulares de seus ativos digitais, sem qualquer dependência de terceiros. 

É essa característica, a propriedade digital, a premissa mais fundamental viabilizada pelas blockchains e pelos criptoativos. Com ela, surgem os conceitos de interoperabilidade e de mobilidade nativa entre diferentes aplicações, características que limitam enormemente a capacidade das empresas de elevarem suas fronteiras virtuais. 

Como exemplo, imagine o cenário atual de um influenciador digital do Instagram, ou de um grande podcaster do Spotify, cujo sustento venha majoritariamente dessas plataformas. Caso, por algum motivo, alguma dessas empresas decida mudar suas regras de negócio, eventualmente prejudicando os criadores, restam a eles pouquíssimas alternativas de ação. Não raro, eles não possuem nenhuma forma de contato direto com sua rede de seguidores arduamente construída e sequer têm acesso aos e-mails daqueles que os acompanham. O criador digital fica, portanto, efetivamente refém das plataformas.

Os participantes do ecossistema da Web 3.0, no entanto, libertam-se das amarras dos “jardins murados” (walled gardens) construídos pelas Big Techs, ganhando a capacidade de levar todos os seus pertences digitais – desde seu histórico pessoal até sua rede de contatos – para aplicações alternativas. Foi a descentralização na camada da blockchain o pilar que permitiu que esse objetivo fosse atingido. 

Entretanto, ao subirmos um degrau e analisarmos as características das aplicações construídas sobre essa infraestrutura, encontramos um cenário diferente. O papel da descentralização, apesar de desejável, deixa de ser essencial. Isso acontece porque, contanto que os usuários tenham acesso a uma “porta de saída” – i.e., a capacidade de utilizar a mobilidade conferida pelos protocolos base para levarem consigo seus ativos digitais – eles deixarão de ficar sujeitos a agentes potencialmente nocivos, podendo sempre buscar melhores alternativas. 

É a economia de mercado em sua essência, quebrando barreiras e estabelecendo um ambiente de livre concorrência (level playing field). Nesse cenário, importa menos o grau de centralização, uma vez que o poder está efetivamente nas mãos dos usuários. Os projetos vencedores serão aqueles que tiverem o melhor produto, com a melhor experiência de uso, os melhores preços e os melhores incentivos, sejam eles descentralizados ou não.

Um grande exemplo que ilustra esse argumento é o OpenSea, que, apesar de ser um protocolo totalmente centralizado tanto em termos de governança quanto de poder econômico, tornou-se o maior marketplace de negociação de NFTs por larga margem. Hoje, a plataforma negocia uma média de mais de US$ 3 bilhões em NFTs por mês, com uma participação de mercado que superou os 90% ao longo dos últimos meses. Apesar de existirem outros marketplaces de arte digital no mercado, o OpenSea manteve sua dominância ao entregar um produto significativamente superior aos demais.

No entanto, sem as tradicionais barreiras que elevam o custo de troca para os usuários, um mercado tão grande torna-se um enorme convite à concorrência. Soluções descentralizadas, que compartilhem de forma mais igualitária o resultado econômico e que tragam a comunidade para o centro da tomada de decisão, tornam-se alternativas cada vez mais viáveis. O marketplace de NFTs recém-lançado, LooksRare, ilustra bem essa dinâmica.

Após meses de desenvolvimento, o LooksRare entrou no ar no início de janeiro, trazendo elementos que colocam a comunidade em primeiro lugar. Além de cobrar uma taxa de 2% por transação, inferior aos 2,5% do principal concorrente, ele estreia com o lançamento de tokens próprios (LOOKS) – até hoje ausentes no OpenSea –, beneficiando seus detentores com as taxas de transação acumuladas pela plataforma. Por conta da arquitetura aberta e transparente, o projeto pôde alocar uma parcela relevante desses tokens para os atuais usuários do OpenSea, como incentivo para atração desses clientes. No total, cerca de 75% da oferta de tokens será destinada à comunidade. 

Os resultados iniciais têm sido impressionantes, com volumes significativamente superiores aos do concorrente ao longo dos primeiros dias de operação. Em essência, o LooksRare utilizou-se da descentralização a nível da aplicação como uma vantagem competitiva, atraindo usuários de forma acelerada e sem a necessidade de capital externo. Ao transformar os participantes da rede em beneficiários diretos do seu sucesso, o ideal da Web 3.0 mostrou seu pleno potencial. Ainda é cedo para afirmar que a estratégia será sustentável (há, inclusive, críticas importantes sobre o modelo de tokenomics do projeto, que incentiva wash trading), mas os indícios são promissores. 

Olhando para frente, imaginamos que o caminho natural do OpenSea será em direção a um maior grau de descentralização, conforme seu próprio CTO já vem indicando nas redes sociais. Movimento similar aconteceu com o Uniswap, por exemplo, que, após o explosivo sucesso inicial de um de seus principais concorrentes, o SushiSwap, tomou a decisão de distribuir tokens de governança para sua comunidade. Vislumbramos um movimento no qual muitos dos protocolos, inicialmente centralizados, evoluirão progressivamente em direção a uma maior descentralização.

Conclusão

Apesar das diversas críticas, algumas trazendo ponderações realmente válidas, nos parece que o debate em torno do potencial da Web 3.0 foge do que realmente importa. A discussão real não se trata sobre descentralização ou sobre o grau de controle de uma plataforma específica. Trata-se, na verdade, de plataformas abertas, nas quais tanto os desenvolvedores quanto os usuários têm o poder de escolher os serviços que lhes extraiam menos e retornem mais.

Isso nos permite, finalmente, responder à grande pergunta: afinal, quem são os donos da Web 3.0? Indiscutivelmente, os usuários. Por meio de protocolos base abertos e descentralizados, eles estão livres – talvez pela primeira vez – para escolher os serviços que entregam, efetivamente, a melhor proposta de valor. Esse é o novo paradigma que a Web 3.0 representa, o de um mundo digital verdadeiramente sem barreiras.