Artigos e Opiniões
04 de setembro de 2020
Relatório da Chainalysis sobre a adoção de cripto na América Latina

A Chainalysis, empresa de  investigação de criptomoedas e soluções de conformidade para agências policiais, reguladores e empresas globais publicou nesta quinta-feira um relatório sobre a adoção de criptoativos na América Latina. Para a realização do relatório, a companhia utilizou a opinião de membros da Hashdex acerca do tema. 

Leia o relatório traduzido:

Com US $ 25 bilhões em criptomoedas enviadas e US $ 24 bilhões recebidas no último ano, a América Latina possui um dos menores volumes de  criptomoedas transacionado, à frente apenas da África e do Oriente Médio. A região representou, apenas, entre 5% e 9% de toda a atividade de cripto ano passado. Contra-intuitivamente, a criptoeconomia da América Latina apresentou a segunda menor taxa de crescimento no último ano, apesar de ser um dos mercados mais quentes na indústria de fintechs.

Apesar disso, nossos dados, emparelhados a entrevistas com especialistas da região, revelam que alguns dos mesmos fatores que alimentam a onda de fintechs da América Latina, como problemas de acesso bancário e a necessidade de remessas, estão impulsionando padrões únicos de uso de criptomoeda, além do investimento especulativo comuns a outras regiões.

Esses problemas estão levando empresas latino-americanas - não apenas as pessoas físicas - a realizar transações comerciais utilizando criptomoedas.

 

 

Remessas são a chave

 

O alto custo e os tempos de espera das remessas há muito são considerados um problema que a criptomoeda pode resolver, visto que os ativos virtuais podem ser transferidos para o exterior instantaneamente, sem as altas taxas comuns às transferências internacionais de moeda fiduciária. Dada a importância das remessas na região, a América Latina é um lugar onde esperaríamos ver tal atividade. De acordo com o Banco Mundial, as remessas representam 1,7% do PIB total da América Latina, com apenas o Oriente Médio e Norte da África (MENA) e a África Subsaariana tendo uma parcela maior do PIB composta por transferências do exterior.


Os dados on-chain de alto nível são compatíveis com isso, com 90% das criptomoedas recebidas pela América Latina vindo de fora da região.  Vamos nos aprofundar em quais países estão do outro lado das remessas de criptomoedas da América Latina, que quantificamos abaixo com base em transferências diretas do exterior para endereços da América Latina.

Não é nenhuma surpresa ver a América do Norte bem representada aqui, já que os Estados Unidos são a maior fonte de remessas para a América Latina em moeda fiduciária. Patricia Risso, Chefe de Risco Regulatório da Bitso, exchange que atende principalmente ao México, Argentina e Brasil, confirmou em entrevista à Chainalysis, observando que, como vemos no mundo fiduciário, as remessas de criptomoedas dos Estados Unidos para o México são comuns. Na verdade, nossas estimativas evidenciam que o México recebeu cerca de 11% dos pagamentos de varejo da região, atrás apenas do Brasil e da Venezuela.

 

Curiosamente, nossos dados mostram que o Leste Asiático é uma contraparte significativa para a América Latina. Em entrevistas com operadores de criptomoeda na América Latina, aprendemos que muitos desses pagamentos são, na verdade, transações comerciais entre exportadores asiáticos e empresas latino-americanas, que compram as mercadorias objetivando a venda no varejo. Luis Pomata, cofundador da exchange paraguaia Cripex, nos deu algumas dicas de como isso funciona.

“Muitos produtos são importados da China para o Paraguai e depois seguem para outros países. Muitas empresas que compram esses produtos usam Bitcoin porque é mais rápido e fácil. Os bancos no Paraguai estão preocupados com a lavagem de dinheiro e são exigentes com quem trabalharão, então o processo de inscrição bancária é longo e difícil - muitas empresas são rejeitadas. E mesmo se você tiver um banco, ainda é muito difícil e caro fazer uma transferência eletrônica, devido à quantidade de documentação de apoio que você precisa fornecer. Sendo esse o principal motivo para os comerciantes escolherem cripto.”

 

Uma reserva de valor segura em um mercado turbulento

 

Não são apenas as empresas na América Latina que estão tendo problemas com bancos. Muitos indivíduos também não conseguem obter contas bancárias, o que é outro fator que impulsiona a adoção da criptomoeda.

 

“Muitas pessoas aqui têm renda inconstante, porque fazem bicos para o Uber ou semelhantes, dificultando o acesso a uma conta bancária”, diz Sebastian Villanueva, administrador das operações chilenas da SatoshiTango, uma exchange de criptomoedas que atende a vários países latino-americanos.

 

Sem acesso fácil aos bancos, muitos jovens na América Latina recorrem à criptomoeda como meio de armazenar valor.Villanueva  observa,ainda, a importância das stablecoins como DAI e USDC para os latino-americanos que buscam travar suas economias, como comprovado nos gráficos abaixo.Pomata  observa, também, que, em muitos desses casos que envolvem transações comerciais, as empresas estão tentando evitar impostos de importação, o que seria facilitado através da compra com criptomoedas. 

 

Vale ressaltar, ademais, a instabilidade da moeda como fator de impulsão para a adoção da criptomoedas na América Latina. Infelizmente, isso tem sido um problema na região há décadas. Wences Casares, CEO do popular fornecedor de carteiras de criptomoedas Xapo, considerou o problema a principal motivação para iniciar sua empresa. 

 

A análise do volume de negociação de câmbio peer-to-peer (P2P) revela o quanto a desvalorização da moeda leva à adoção da criptomoeda em muitos países latino-americanos.

 

O gráfico abaixo evidencia as correlações entre o valor em dólares do volume de transações P2P e a desvalorização da moeda em vários países da América Latina, medida pela quantidade de unidades monetárias nativas necessárias para $ 1 USD.

 

As correlações sugerem que os usuários de criptomoedas na Argentina, Uruguai, Colômbia e Chile estão se voltando para a criptomoeda como meio de armazenar valor, quando suas moedas fiduciárias nativas perdem valor.

 

 

 

De fato, o volume de transações P2P em muitos países latino-americanos aumenta à medida que a moeda nativa deprecia. Operadores de criptomoeda na América Latina relataram a forma como a desvalorização da moeda e a instabilidade econômica trazem os usuários para suas plataformas.

 

“A Venezuela e a Argentina, especialmente, estão imprimindo dinheiro loucamente, então suas moedas fiduciárias estão perdendo valor. Isso leva à adoção de criptomoedas ”,

disse Sebastian Villanueve. Ele também observa que alguns países, como a Argentina, limitam a quantidade de dólares americanos que os cidadãos podem comprar por mês, o que limita ainda mais suas opções de economia segura e aumenta a necessidade de criptomoeda.

 

Villanueva passou a descrever como a piora das condições econômicas e a agitação civil associada levam à adoção da criptomoeda. “Em outubro passado, no Chile, houve protestos em massa sobre educação, saúde e condições econômicas em geral.

 

As plataformas Fiat Pay tiveram grandes quedas de atividade durante esse período, mas crescemos cerca de 35% ”, lembra. “As pessoas só querem uma maneira segura de armazenar dinheiro.”

 

Negociação e especulação, mas também golpes

 

 

O Brasil é, de longe, o maior usuário de criptomoeda da América Latina. No entanto, embora a Venezuela pareça estar em um distante segundo lugar, seu papel se torna mais pronunciado quando olhamos para os volumes de comércio P2P.  Os venezuelanos são, na verdade, responsáveis ​​pelo terceiro maior número de transferências no LocalBitcoins e no Paxful, duas das exchanges P2P mais populares do mundo.

 

 

Enquanto a América Latina possui a segunda maior participação na atividade total de negociações de varejo (definidas como transferências de menos de US $ 10.000 em criptomoeda), o mercado profissional ainda responde por cerca de 80% de todo o volume transferido em um determinado mês.

 

Conversamos com membros da Hashdex, um hedge fund focado em criptomoedas com sede no Brasil, que afirmaram que o desejo por ativos potenciais de alto rendimento com retornos não correlacionados está impulsionando a adoção de criptomoedas entre investidores profissionais, como fundos de pensão e family offices.

 

Semelhante a outras partes do mundo, todavia, a América Latina tem uma classe de investidores quase profissionais envolvidos em negociações e especulações significativas. A maioria desses negociantes prefere operar em grandes exchanges internacionais como a Binance, como vemos na tabela abaixo, mostrando os cinco principais serviços que recebem criptomoedas e enviam para a América Latina:

 

 

A chefe de risco regulatório da Bitso, Patricia Risso, explicou que muitos negociantes usarão fiat  para comprar Bitcoin ou stablecoins e, em seguida, usarão esses fundos como uma rampa para trocas maiores na Binance, onde podem acessar mais pares de negociação e maior liquidez. Diversas fontes confirmaram que este é um padrão comum não apenas na América Latina, mas também em outras regiões em desenvolvimento. Acreditamos que essa atividade represente uma parcela significativa do volume de transferência de stablecoin que observamos em outra parte desta seção.