06 de outubro de 2021
Interesse institucional em cripto: panorama e próximos passos

Não há mais espanto quando grandes empresas demonstram interesse em cripto e/ou blockchain. Alguns eventos são mais notáveis, como a Visa comprar um cryptopunk por 50 ETH ou o 3º maior banco da França socilitar um empréstimo de US$20 milhões junto à MakerDAO. Mas o interesse institucional em cripto já é uma realidade.

 

Esse interesse se reflete, claro, em números: ao fim do primeiro trimestre de 2021, já havia mais de 830 fundos de investimento focados em cripto no mundo, totalizando cerca de US$58 bilhões sob gestão. Talvez ainda mais promissor, denotando interesse de longo prazo, seja o investimento em empresas de cripto. Segundo a Pitch Book, investimentos de Venture Capital no setor, na primeira metade de 2021, já somavam US$17 bilhões, mais que o triplo do valor captado durante todo o ano anterior.

 

Para além das finanças, empresas dos mais variados setores têm apostado nas vantagens oferecidas por tecnologias de registro distribuído. Um levantamento da Blockdata apontou que 65 das 100 maiores empresas do mundo têm projetos envolvendo blockchain em fase funcional - incluindo os projetos em fase de pesquisa, esse número sobe para 81.

 

Mas como essas informações se traduzem em otimismo para os investidores e usuários de cripto?

 

O primeiro ponto é sobre validação: disputando a atenção dos principais executivos do planeta, as vantagens do ecossistema passam por análises criteriosas. Assim, cada rede, protocolo ou criptoativo adotado por grandes empresas carrega o equivalente a um selo de aprovação que pode orientar investidores e usuários finais, assim como os empreendedores aspirantes a semelhante validação.

 

Empresas também ajudam a acelerar o ecossistema ao preencher, ainda que provisoriamente, lacunas das soluções descentralizadas. Por exemplo: enquanto as soluções de Finanças Descentralizadas (DeFi) lutavam para alcançar níveis maduros de liquidez, segurança e usabilidade, até 2020, provedores privados de pagamentos, custódia, bolsas de negociação e stablecoins já permitiam às finanças cripto o alcance de um público global.

 

As empresas também contribuem com demanda direta: ainda no contexto de DeFi, segundo uma pesquisa da PWC, 31% dos fundos de investimento em cripto negociam em bolsas descentralizadas (DExes) e 42% fazem stake dos seus tokens. O recente pedido de empréstimo do Société Générale junto à MakerDAO pode ser um antecedente importante para a demanda por liquidez nesse mercado por grandes instituições.

 

Ressaltamos, ainda, outras iniciativas que fomentam o desenvolvimento do mercado: o sistema de gorjetas em Bitcoin implementado pelo Twitter; a aceitação de Bitcoin como pagamento por empresas como Microsoft e Starbucks; e os serviços de custódia de criptoativos oferecidos por grandes instituições financeiras como US Bank, BNY Mellon e Fidelity.

 

Mas ainda há passos importantes a serem dados.

Para entrar de vez no mercado cripto, as empresas ainda esbarram na desconfiança do público: não faz muito, as criptos ainda eram conhecidas por supostas vantagens para lavagem de dinheiro e financiamento ao crime; passar a vê-las como bases de uma economia mais justa e eficiente é uma transição cultural que pode tomar tempo.

 

Para isso, será importante contar com esforços educacionais para desmistificar algumas velhas questões, como “Como assim não tem lastro?” e “Por que um cidadão de bem precisa de uma moeda (semi-)anônima?”, além de outras que ainda vamos ver surgir com a evolução dos ativos e das tecnologias.

 

Superada essa barreira, ainda será preciso que o ecossistema e as regulações se ajustem, cada um a seu ritmo e seu jeito, para que a implementação e a demanda de soluções descentralizadas sejam respaldadas pela previsibilidade dos sistemas regulados.

 

Por último, destacamos a necessidade de se integrarem, de forma segura e eficiente, os sistemas tradicionais e as soluções descentralizadas. A criptoeconomia terá atingido sua maturidade quando a transição entre os dois mundos chegar a ser imperceptível para os usuários.